terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Estou a descobrir Clarice Lispector


Escuta: eu te deixo ser. Deixa-me ser então.”

“Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. É que não sei aonde me levará esta minha liberdade. Não é arbitrária nem libertina. Mas estou solta.”

“Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro. Vou agora parar um pouco para me aprofundar mais. Depois eu volto. Voltei. Fui existindo.”

“Depois de certo tempo cada um é responsável pela cara que tem. Vou olhar agora a minha. É um rosto nu. E quando penso que inexiste um igual ao meu no mundo, fico de susto alegre.”

“Que o Deus me ajude: estou perdida. Preciso terrivelemente de você. Nós temos que ser dois. Para que o trigo fique alto. Estou tão grave que vou parar.”

“Mas eu me alimentei com a minha própria placenta. E não vou roer unhas porque isto é um tranqüilo adaggio.”

“Mas por que esse mal-estar? É porque não estou vivendo do único modo que existe para cada um de se viver e nem sei qual é. (…) Eu me aprofundei mas não acredito em mim porque meu pensamento é inventado.”

“Para te escrever eu antes me perfumo toda.”

“Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha.”

“O jasmim é dos namorados. Dá vontade de pôr reticências agora.”

“Eu, que corro nervosa e só a realidade me delimita.”

“Mas como fazer se não te enterneces com meus defeitos, enquanto eu amei os teus.”

“Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou vivendo nesta hora.”

“Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar só uma vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor da nossa verdade.”

“Aliás não quero morrer. Recuso-me contra “Deus”. Vamos não morrer como desafio?”

“Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu e você é você. É vasto, vai durar.”

*Obrigada por ter existido, Clarice. Porque é vasto, vai durar.

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