
" (...) O problema não deve ser eu. E eu nem te amo mesmo. (...)Respiro aliviada e sugo o máximo de você, pra ter a certeza absoluta de que não é você. Não sonhei com você. Não quero passar minha vida ao lado da pessoa + estranha do mundo.(...) Imagina só ficar velha ao lado de um homem que tem pavor da vida óbvia, cotidiana e imperfeita? Que tem medo de mim. Que sente que e' inferior a mim. Eu viveria infeliz. Não é você. E lá vem você me olhar apaixonado e, no segundo seguinte, frio, dizendo que eu não preciso sofrer, quer ir embora mas tambem não desiste de mim. E eu me digo que não é você. Me despeço, já sem aquela dor aterrorizante, das partes de você que mais amo. Ainda que eu nem te ame mesmo. Ainda que nada disso seja amor. E entro no carro já sem chorar. Os últimos dias chorando por você serviram ao menos para me secar por dentro. Preciso me aliviar. Mas dou até risada porque acabaram os caminhos. O mundo não suporta mais esse meu não amor por você. E escrever, que sempre foi a única coisa que adiantava para os dias passarem menos absurdos, já se tornou algo ridículo. Escrever sobre você de novo? De novo? Tenho até vergonha. Nem eu suporto mais gostar de você. E olha que nem gosto.É como se o mundo inteiro, os ventos, as ondas do mar, os terremotos, as criancinhas peladinhas brincando de construir castelinhos na areia , os carros correndo nas estradas, os cachorrinhos meditando nas gramas de todos os parques do mundo, a chuva, os cartazes de filmes, o passarinho que canta todo dia de manhã na minha janela, a torta de palmito na geladeira, a minha vizinha louca que briga com o gato na falta de um marido. É como se o mundo inteiro me dissesse: “hei ninguém agüenta mais esse assunto! Chega!”E no meio da noite, quando eu decido que estou ótima, afinal de contas tenho uma vida incrível e nem amava mesmo você, eu me lembro de umas coisas de mil anos e começo a amar você de um jeito que, infelizmente, não se parece em nada com pouco amor e não se parece em nada com algo prestes a acabar.(...)Lembro da sua regata branca com a palavra amor no peito e do seu cabelo igual ao sol, do cheiro que você tem bem no centro da nuca(...). E lembro da primeira vez que eu te vi e te achei meio feio, menino, estranho. Até que você me suspendeu no ar por razão nenhuma eu tive certeza que meu primeiro filho nasceria um pouco feio e estranho.E então, no meio da noite, enquanto eu penso tudo isso, eu pergunto ao mundo todo que não agüenta mais esse assunto. Ao mar, às criancinhas peladas, aos cartazes de filmes, ao passarinho, à vizinha, aos cachorrinhos em meditação, à torta, aos carros, à qualquer um...eu pergunto: por que é que vocês todos estão tão cinza? Por que é que vocês não me ajudam? Por que é que todos vocês também ficam tão tristes quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também morrem quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também amam ele?"
Nenhum comentário:
Postar um comentário